quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O ministro da Justiça de Michel Temer disse que existe terrorismo no Brasil. Ele também criticou o presidente americano Donald Trump e os militares da chapa de Bolsonaro


O ministro da Justiça, Torquato Jardim, afirmou que é preciso acreditar que há terrorismo no Brasil, em discurso pontuado por uma série de críticas a questões políticas atuais, que foram do presidente americano, Donald Trump, aos militares que compõem a chapa de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República.
“É preciso que no governo e na sociedade se acredite que há terrorismo e terroristas no Brasil”, disse ele nessa terça-feira, durante a palestra de abertura de Congresso de Combate e Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento ao Terrorismo, promovido pela Febraban (Federação dos Bancos).
Jardim citou oito pessoas que foram condenadas e presas no presídio de segurança máxima de Campo Grande (MS) e “outro número razoável de brasileiros sob supervisão”. A polícia brasileira prendeu oito brasileiros sob acusação de terrorismo duas semanas antes do início da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.
Segundo Jardim, são supervisionados por suspeita de ligação com terrorismo. São pessoas que moraram fora do Brasil, mas não falam árabe e cometem erros gramaticais na língua equivalentes aos cometidos por quem usa o Google Tradutor, disse.
O importante, afirmou, “é não negar a validade de cada pedacinho de informação e não ficar surpreso. Há quatro semanas, por exemplo, prenderam um agente do Hezbollah [grupo extremista libanês] em Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com o Paraguai”.
Trump
Ainda em seu discurso, Jardim defendeu a necessidade de um maior número de servidores da PF (Polícia Federal) trabalhando no exterior e comentou que esse seria um importante investimento para o Brasil, que pretende ser membro ativo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
A crítica foi ao presidente norte-americano, Donald Trump: “O Brasil ser membro ativo da OCDE pode ter boas consequências a despeito da barreira Trump desse momento, que nós vamos superar, nem que seja na próxima eleição”.
Ainda no campo do combate ao terrorismo, Jardim criticou que o Brasil não seja signatário de convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) que impõe sanções imediatas em casos de terrorismo. “Mesmo com essa lei entrando em vigor, não vai faltar alguém concedendo liminar a ação direta de inconstitucionalidade no STF e ganhando”, disse.
Para ele, essas seriam soluções carregadas de ideologia: “Em um país que ainda luta por saúde básica, o que pode haver de mais ultrapassado do que ideologias?”.
Antes, ele havia criticado a dificuldade de negociar acordos de leniência com empresas investigadas em crimes financeiros porque as negociações envolvem muitos órgãos brasileiros, cujos papéis estariam pouco claros nesse momento: AGU (Advocacia-geral da União), TCU (Tribunal de Contas da União), MPF (Ministério Público Federal) e Ministério da Transparência.
“É a constituição que foi mal pensada. Não estou propondo constituinte sem consulta popular. Não estou propondo nada disso, por favor. Embora eu seja ex-aluno de colégio militar eu sou intelectualmente mais disciplinado que alguns deles”, afirmou, arrancando risos da plateia.
O candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL), General Mourão, chegou a propor a criação de uma nova Constituição Federal, escrita por uma “comissão de notáveis” e que depois seria submetida a um plebiscito. A própria Carta Magna não prevê essa possibilidade.
osul

A Polícia Federal concluiu o inquérito dos Portos e indiciou Temer por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa


Relatório conclusivo da PF (Polícia Federal) apresentado nesta terça-feira (16) ao STF (Supremo Tribunal Federal) indiciou o presidente Michel Temer e outras nove pessoas pelos crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O indiciamento envolve suspeitas de irregularidades na edição do decreto dos portos.
A PF (Polícia Federal) entregou o relatório final do inquérito dos Portos, que investiga o presidente Michel Temer (MDB) ao ministro Luís Roberto Barroso, relator do caso no STF. O ministro chegou a prorrogar a conclusão do inquérito por quatro vezes. Barroso deve encaminhar o inquérito para a PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestar. A PGR tem até 15 dias para se pronunciar.
O inquérito dos Portos foi aberto pelo STF, a pedido do então procurador da República, Rodrigo Janot, após a delação de executivos do Grupo J&F, que denunciaram pagamentos de propina a agentes políticos, entre eles Michel Temer e o ex-assessor dele, Rodrigo Rocha Loures.
Desde novembro de 2017, o delegado Cleyber Malta Lopes investiga se empresas do setor portuário pagaram propina em troca de um decreto presidencial. O presidente nega que o decreto tivesse essa finalidade desde o início das investigações. Empresas alvo do inquérito também negam o pagamento de propina. Em maio de 2017, o presidente Michel Temer ampliou de 25 para 35 anos o prazo de contratos de concessões de empresas portuárias, podendo chegar a até 70 anos.
Durante 11 meses, a Polícia Federal investigou a edição do decreto e pessoas ligadas ao presidente Michel Temer, como o Coronel João Baptista Lima Filho, amigo de Temer há mais de 30 anos e sócio da empresa de arquitetura Argeplan. A suspeita da PF é a de que a empresa tenha sido usada para receber propina do setor portuário, pelo Coronel Lima e seu sócio, Carlos Alberto Costa, em nome do presidente Michel Temer.
Reforma feita na casa da filha do Presidente
A PF também investigou ao longo de quase um ano uma reforma feita na casa da filha do presidente, Maristela Temer. O imóvel passou por obras entre 2013 e 2015 e a suspeita da Polícia Federal é de que pelo menos R$ 1 milhão tenha vindo do setor portuário. Executivos do grupo J&F, donos da Eldorado Celulose, que atua no Porto de Santos, disseram à PF que repassaram 1 milhão de reais ao coronel João Baptista Lima Filho, em 2014, na sede da Argeplan, a pedido do presidente Temer.
osul

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Apenas 3,3% dos estudantes brasileiros querem ser professores


Mariana Tokarnia
Da Agência Brasil
“Meu sonho mesmo é dar aula para o ensino médio, pode ser em escola estadual,  municipal ou particular”, diz Lucas dos Anjos Castro, 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Botelho Reis, em Leopoldina, Minas Gerais. “Eu me vejo como professor, igual aos meus, na correria, rodando para lá e para cá, entrando em uma sala e outra. É o que eu gosto”.
O sonho com a carreira docente, como o de Castro, é cada vez mais raro. De acordo com levantamento feito pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), com base nos dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2015, apenas 3,3% dos estudantes brasileiros de 15 anos querem ser professores. Quando se trata daqueles que querem ser professores em escolas, na educação básica, esse percentual cai para 2,4%.
Hoje (15), no Dia do Professor, a Agência Brasil mostra as ideias de quem quer seguir a carreira docente e de professores que não abrem mão da profissão.
“Quando eu contei para a minha mãe, ela me disse: ‘você pode ganhar mal, como será o seu futuro?’ Eu falei que queria e que se eu não trabalhar no que quero, não vou ser feliz”, diz Castro.
Um dos professores que influenciou a decisão do estudante foi João Paulo de Araújo que, além de lecionar história na Escola Estadual Professor Botelho Reis, trabalha também na Escola Estadual Doutor Pompilio Guimarães e no Colégio Equipe, que é particular. “Acho que no primeiro momento, os alunos não escolhem porque a própria família recrimina, a sociedade julga muito. Eu tenho buscado ser um professor melhor, que inspire, que mostre que a profissão é tão boa quanto qualquer outra, que tem desafio como qualquer outra”.
Araújo foi um dos vencedores do prêmio Educador Nota 10, em 2013. “É a forma que posso retribuir tudo que educação fez por mim. Venho de família humilde. Meu pai é ex-presidiário e minha mãe era doméstica. A oportunidade que eu tive foi graças à educação”.

Carreira pouco atrativa

O estudo elaborado pelo Iede mostra que a carreira docente não atrai os alunos que têm um melhor desempenho no Pisa. A avaliação internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é aplicada a estudantes de 15 anos que fazem provas de leitura, matemática e ciências. Entre os 70 países e regiões avaliados, o Brasil ficou na 63ª posição em ciências, 59ª em leitura e 65ª em matemática. Os estudantes que disseram que pretendem ser professores obtiveram 18,6 pontos a menos da média do país em matemática, 20,1 pontos a menos em ciências e 18,5 a menos em leitura.
Dentre os países participantes do Pisa, a Alemanha é o que apresenta a maior diferença entre a nota dos alunos que esperam ser professores e a média geral do país. Aqueles que querem seguir a carreira docente obtiveram 42,9 pontos a mais em matemática, 52,5 em ciências e 59,1 em leitura.
Os países com os maiores percentuais de estudantes que querem ser professores são Argélia, onde 21,7% dos estudantes querem ser professores, e Kosovo, onde esse percentual chega a 18,3%. Nesses países, no entanto, o desempenho desses alunos não é bom, “mas é muito similar ao desempenho geral dos estudantes do país, que é baixo”, diz o estudo. Coreia e a Irlanda estão também entre os países com os maiores percentuais, respectivamente 13,8 e 12,6%. Ao contrário da Argélia e Kosovo, o desempenho dos alunos é bom, chegando, na Coreia, a ser superior à média nacional.
“O que o dado brasileiro revela é o fato que a ocupação de professor está com problemas de atratividade. As pessoas que têm notas mais altas escolhem outras profissões”, diz o professor de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Fábio Waltenberg, um dos autores do estudo Ser ou não ser professor da Educação Básica? Salário esperado e outros fatores na escolha ocupacional de concluintes de licenciaturas. Segundo Waltenberg, o salário é um dos  entraves para a escolha da profissão.

Equiparação salarial

Professores de escolas públicas ganham, em média, 74,8% do que ganham profissionais assalariados de outras áreas, ou seja, cerca de 25% a menos, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)Essa porcentagem subiu desde 2012, quando era 65,2%.
Por lei, pelo Plano Nacional de Educação, esse salário deve ser equivalente ao de outros profissionais com formação equivalente até 2020.
De acordo com o diretor do Iede, Ernesto Martins Faria, três aspectos contribuem para a atratividade da profissão. “Planos de carreira para professores e educadores, ações específicas de valorização, que geram estímulo e permanência, e coesão escolar. O funcionamento da escola tem a ver com visão consistente, semelhante de gestor, coordenador pedagógico e educadores”, diz.
Segundo ele, o fato de os professores serem muitos e estarem ligados a estados e municípios, muitas vezes com orçamentos restritos, dificulta sobretudo a existência de planos de carreira atrativos. “Estamos falando da carreira de 2 milhões de professores, [não apenas o Brasil], o mundo sofre para oferecer uma carreira atrativa”.
Apesar das dificuldades, a estudante de licenciatura em ciências sociais Aniely Silva, 20 anos, não desiste do sonho de ser, assim como Castro, professora de ensino médio. Ela conta que a vontade ficou mais forte após participar das ocupações de escolas em São Paulo.
“Durante as ocupações das escolas, percebi o quanto de informação não chega para nós, que somos de periferia e de escola pública. Queria conseguir levar informação para as pessoas. Quando a informação chega como conhecimento, muda a realidade das pessoas, como mudou a minha”.
Aniely arremata: “Não escolhi a profissão pelo salário e não me desmotiva. Quero estudar muito para ser muito boa no que eu faço e lutar para melhorar a educação, por mais investimento e valorização dos professores”.
SUL21

sábado, 13 de outubro de 2018

Mercado ilegal: do desvio de valiosas cargas ao submundo de celulares furtados


Há um mercado ilegal, clandestino, que movimenta em paralelo uma rede de crimes em Santa Catarina. De brinquedo a cigarro, polietileno, matéria prima para a indústria, bobina de aço, celulares a alimentos.
No começo do ano, a Polícia Civil criou em Santa Catarina uma divisão para combater o furto e o roubo de cargas. Havia uma pressão de anos de empresários. Resultado: menos de 12 meses depois, quase que semanalmente há apreensões e prisões.
A Operação Torre de Babel, surgida no Distrito Federal e com ramificações em sete Estados, teve o Norte catarinense como principal alvo. No esquema interestadual, 18 pessoas foram presas em Santa Catarina e levadas a Brasília em um avião Hércules da Força Aérea. O bando atuava até com o tráfico de drogas, concretizando troca-troca de mercadorias por entorpecentes.

Falsas comunicações de crimes

A principal constatação da Deic: a maior parte dos crimes relatados nas estradas na verdade não acontece. São falsas comunicações. Motoristas integram quadrilhas que providenciam desvios dos valorosos produtos.
Levados até São Paulo ou Rio, os condutores registravam boletim de ocorrência por lá. Contavam com a corrupção de quatro policiais civis paulistas presos que retardavam o envio das queixas a Santa Catarina. Recentemente, o dono de um supermercado de Itajaí foi preso comercializando carga desviada de frango.
– Santa Catarina está sendo pioneira em botar a boca nisso. Temos essa constatação desde o ano passado. Boa parte das ocorrências são falsas, acaba lesando todo mundo: a logística da segurança, as seguradoras, os donos das cargas, a sonegação de impostos... – lamenta o diretor da Deic, Anselmo Cruz.

Golpe do chute nos anos 2000

No começo dos anos 2000, o Estado também figurou nacionalmente por crimes semelhantes. Empresários eram persuadidos a vir a Santa Catarina para conferir cargas com preços irrecusáveis e a promessa de um bom negócio.
Por telefone, o falso vendedor oferecia produtos ou carregamentos (na verdade fictícios) como máquinas agrícolas, arroz, milho, cobre. O preço era abaixo ao de mercado. Ao chegar, no aeroporto, o cliente era levado a uma casa, na realidade um cativeiro. A vítima então era obrigada a autorizar pagamento. Um verdadeiro sequestro conhecido como “golpe do chute”.
A Deic fez dezenas de prisões comandadas pelo falecido delegado Renato Hendges, o Renatão. Os criminosos pegaram cadeias pesadas.

Máfia dos celulares

Uma outra máfia atua no Estado, no ramo de celulares furtados e roubados. Houve buscas e apreensões contra um grupo que atua na região do Mercado Público, na Capital. A apuração ainda está em andamento. Como diz o velho ditado: o barato pode custar muito caro.


nsc