quarta-feira, 21 de março de 2018

James Green: É evidente que o Brasil não vive um momento democrático. Crise tende a se aprofundar


Marco Weissheimer
Em 1973, o historiador James Green assinou uma carta em apoio ao Bertrand Russell Tribunal (ver original abaixo), um tribunal internacional que estava denunciando a tortura cometida por agentes da ditadura no Brasil. O destino e, principalmente, a fragilidade da democracia brasileira, fizeram com que, mais de 44 anos depois, organizasse um manifesto de professores de algumas das mais importantes universidades dos Estados Unidos para repudiar a tentativa do governo Temer de intervir na autonomia das universidades brasileiras. “Participo do movimento transnacional de solidariedade com Brasil faz 44 anos. Não é a primeira vez que ajudo a mobilizar a opinião pública internacional para defender direitos humanos no Brasil”, assinala.

Historiador especializado em estudos latino-americanos, brasilianista e ativista dos direitos LGBT, James Green viveu no Brasil entre 1976 e 1982, trabalhando como professor de inglês e ajudando a organizar o movimento homossexual no país. Hoje, é professor de História da América Latina na Brown University, onde, entre outras atividades, promove um seminário todos os anos sobre a história da ditadura militar brasileira. “Jamais o reitor da minha universidade violaria o meu direito de organizar e ensinar o curso baseado na minha leitura histórica do passado”, diz Green, lembrando as ameaças feitas pelo governo de Michel Temer contra Luis Felipe Miguel, professor de Ciência Política, da Universidade de Brasília UnB), que tomou a iniciativa de organizar um seminário sobre o golpe de 2016.
Em entrevista concedida por e-mail ao Sul21, James Green fala com preocupação sobre a situação política brasileira. O historiador lembra que, nos 517 anos de história do Brasil só houve 43 anos de democracia, o que ajuda a entender os problemas vividos no presente. Para ele, a impunidade dos crimes cometidos pela ditadura representa um ponto crucial para entender episódios como o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro. “Essa impunidade permite que, hoje em dia, os agentes do Estado possam seguir matando indiscriminadamente pessoas pobres e negras. Sabem que não vai acontecer nada”, diz. E acrescenta: “o assassinato de uma líder popular é apenas um de muitos exemplos da violência incentivada pelo Estado contra a oposição”.
James Green afirma ainda que é evidente que o Brasil não vive um momento democrático e avalia que a polarização política atual talvez seja pior do que a vivida em 1964. Ele não é muito otimista em relação ao futuro próximo: “Infelizmente, acho que a crise no Brasil tende a se aprofundar”.
sul21

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